Do Ceará para o ITA – O Segredo é a rapadura… :)

Puxando um pouco a sardinha pro meu lado… 🙂

Fonte: Veja.abril.com.br_191108

Educação – Do Ceará para o ITA
De um grupo de escolas de Fortaleza saem todo ano alguns dos melhores alunos
em ciências exatas do país
– Renata Betti

Em um pequeno conjunto de escolas no Ceará, os estudantes parecem se
divertir aprendendo, tamanho é o seu entusiasmo em dissecar plantas,
participar de campeonatos de matemática e varar madrugadas no laboratório.
Pergunte a esses jovens o que eles mais ambicionam na vida, e a resposta
será algo como “me tornar um bom cientista, claro”. Tamanho apreço por
matemática, química, física já chamaria atenção pelo fato de ser raro nas
escolas brasileiras. O que surpreende ainda mais no caso desses estudantes é
saber que, em meio a milhões de outros no país, eles estão entre os melhores
em tais disciplinas. O desempenho exemplar em exatas é difícil de ver no
Brasil – mais ainda no Ceará, onde as notas costumam ficar abaixo da média
brasileira. O animado grupo de aspirantes a cientista é, portanto,
responsável por dois feitos improváveis. Um deles foi ter alçado o Ceará à
condição de estado com o maior índice de aprovações nos últimos cinco
vestibulares do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), um dos mais
concorridos do país. Entre os calouros, cerca de 30% sempre são cearenses. A
posição de destaque se verifica também em outro levantamento recente, este
com base nas olimpíadas nacionais de física, química e matemática. Dos 670
alunos que receberam medalhas em diferentes competições, 260 eram do Ceará.
Nada menos que 40% dos campeões.

A que se deve o inesperado sucesso cearense na área de exatas? A um grupo de
escolas particulares de Fortaleza que, juntas, reúnem 25 000 estudantes dos
ensinos fundamental e médio. Quando a primeira delas começou a focar o
ensino das ciências, vinte anos atrás, foi sendo copiada pelas outras – que
se viram na necessidade de mirar essas disciplinas para sobreviver à disputa
por alunos. Os números mostram, agora, que a fórmula aplicada nessas escolas
funciona. Não é exatamente original, mas tem o mérito de reunir algumas das
medidas de eficiência comprovada em países como Finlândia e Coréia do Sul,
os melhores do mundo em educação. Um dos pontos comuns entre as escolas
coreanas ou finlandesas e estas cearenses é a carga horária puxada reservada
às disciplinas exatas – 25% maior do que a média brasileira. A jornada de
estudos é de sete horas, mas, entre aulas extras de xadrez e
(“emocionantes”) gincanas de matemática, os estudantes ficam ali por mais de
doze. Nas escolas em que prevalecem o espírito de competição e a
meritocracia, os melhores da turma são alçados às prestigiadas “classes
olímpicas”. Algo que move alunos como Guilherme Freire, 18 anos, do colégio
Farias Brito: “Eu e meus colegas podemos passar o dia inteiro resolvendo um
único problema de matemática. E isso é diversão, jamais sofrimento”.

O ambiente nessas escolas destoa também pelo alto nível dos professores e
dos diretores: 60% são mestres ou Ph.Ds. numa ciência exata. É o caso do
engenheiro Henrique Soárez, com mestrado pelo Instituto de Tecnologia de
Massachusetts, nos Estados Unidos, hoje no comando da escola 7 de Setembro:
“O ponto central aqui é que os professores se prepararam para desempenhar a
função”. Um contraste em relação ao que ocorre na maioria das escolas
brasileiras. Nas públicas, impressiona o fato de 70% dos professores jamais
terem estudado para ensinar tais disciplinas. Diante desse cenário, não
espanta que, às vésperas da faculdade, os brasileiros (incluindo os de
colégio particular) desconheçam a função dos órgãos do corpo humano e
demonstrem perplexidade com o fato de a Terra girar em torno do Sol. Isso é
o que mostra um estudo conduzido pela OCDE (organização dos países mais
desenvolvidos), que produz os rankings internacionais de ensino – aqueles em
que o Brasil aparece, sempre, entre os últimos. Diz o especialista Gustavo
Ioschpe: “O desempenho ruim dos alunos brasileiros tem relação direta com o
péssimo nível dos professores”.

Bons profissionais, por sua vez, conseguem algo que merece atenção no caso
cearense – feito resumido em poucas palavras pela estudante Jéssica
Fernandes, 18 anos: “Sabe o que é contar os minutos para uma aula começar?”.
A moça e seus colegas desfilam camisetas com os dizeres “Just do ITA” (Só
faça ITA) e justificam as olheiras citando as noites insones no laboratório.
As aulas práticas, cujo cenário são salas bem equipadas, também ajudam a
explicar o sucesso do modelo cearense. Básico, mas raro no Brasil. “Os
cearenses que chegam aqui sabem como aplicar o conhecimento científico ao
mundo real”, avalia o coordenador do vestibular do ITA, Luiz Carlos Rossato.
Para passar num concurso tão difícil, os estudantes estão sujeitos a
privações e muitas exigências escolares, entre elas resolver equações que
consomem horas e horas da vida de gente como o cearense Tarcísio Neto, 19
anos, aprovado no ITA aos 16: “Para me tornar um bom engenheiro, vale o
esforço”. O entusiasmo dele e dos outros é mais um sinal de que se está, sem
dúvida, diante de um bom exemplo.

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Walter Cunha

O professor Walter Cunha é pós-graduado em Gerência de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e Engenheiro Eletrônico pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica ( ITA).

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