Como fazer uma prova discursiva? Parte 1/2

Olá pessoal!

Estamos aqui, mais uma vez, dessa vez para debatermos sobre um tema que é constante alvo de dúvidas por parte dos concurseiros: provas discursivas. O objetivo deste artigo é mostrar como elaborar uma prova discursiva técnica, isto é, aquela em que o elaborador lhe pede para dissertar sobre um dos temas específicos de T.I. contidos no edital. Ao final responderemos perguntas freqüentemente feitas sobre o assunto.

Como a maioria das provas do CESPE pede esse tipo de peça, focaremos nessa banca, dando exemplos de forma, conteúdo e estratégia de elaboração.

Vamos lá.

Como caso de exemplo, usarei a minha prova discursiva do concurso do STJ 2008, por várias razões. Primeiro, e mais importante, porque eu tenho os espelhos de correção e posso analisar exatamente onde a correção me tirou ou deu pontos. Segundo por ser uma prova relativamente recente e que abordou assuntos que a maioria das pessoas tem conhecimento: testes e casos de uso (apesar de não ser nosso objetivo, neste artigo, analisar os assuntos abordados em si, mas só a estratégia de fazer a prova). A minha nota final foi 9,33/10 (já descontados os errinhos de português).

Eis o comando da questão:

No escopo dos processos de desenvolvimento de sistemas embasado no RUP (Rational Unified Process), redija um texto dissertativo contemplando os seguintes pontos:

descreva os objetivos do modelo de casos de uso;

relacione as seções tipicamente presentes em um formulário para documentar casos de uso;

defina o que são realizações de casos de uso e descreva como documentá-las na análise;

defina caso de teste;

descreva um procedimento para gerar casos de teste a partir de casos de uso.

Dê uma olhada na minha prova e seu espelho de correção.

Texto STJ

correcao_stj

A seguir vamos montar nosso questionário e responder as perguntas fazendo um paralelo com o que escrevi no texto. Note que, as recomendações-padrão sobre escrita de redações se aplicam: seja objetivo, claro e organizado em seu texto, obedeça as margens, linhas e parágrafos. Enfim, facilite a vida do corretor, ele corrige dezenas de provas, procure fazer um texto bem estruturado.

Questionário.

Posso fazer em letra de forma ou devo fazer em letra cursiva?

Por incrível que pareça, esta é uma dúvida que vez ou outra surge. A resposta é: tanto faz. Faça do jeito que você se sente mais confortável. O importante, como diz o edital é que seja feita em letra legível. Obviamente, se houver comandos específicos no edital quanto a este aspecto, você deve segui-los.

Devo fazer a prova seguindo o padrão de redações, i.e, com início, elaboração e conclusão ou posso simplesmente ir respondendo diretamente os tópicos a serem contemplados?

Mais uma vez, fica a seu critério. Normalmente, para provas do CESPE, que são discursivas de natureza técnica, não há problema algum em simplesmente ir respondendo os tópicos, sem, necessariamente, ir elaborando um textinho, com início, argumentação e conclusão. O elaborador quer testar seus conhecimentos acerca do assunto e não sobre técnicas de redação. Veja o que diz o edital: “A prova discursiva tem o objetivo de avaliar o conteúdo – conhecimento do tema, a capacidade de expressão na modalidade escrita e o uso das normas do registro formal culto da Língua Portuguesa”. Traduzindo, ele quer saber se você sabe do que está falando, e se você consegue expressar duas idéias coerentemente, sem erros de português, incoerências textuais ou lógicas, dentre outras.

Note que, na prova do STJ, eu escolhi, justamente, ir direto ao ponto: saí respondendo a cada tópico que o comando da questão disse que teria que ser contemplado. Não há uma relação lógica entre os parágrafos. Cada um responde a um tópico. Se o CESPE pedisse para abordar quatro assuntos completamente diferentes, eu provavelmente teria feito quatro parágrafos falando de coisas que não tem absolutamente nada a ver entre si. Não há problema nisso. Inclusive, note como o espelho de correção está estruturado justamente por tópicos. Você facilita a vida do corretor ao separá-los por parágrafo, para ele saber exatamente onde você abordou o que foi pedido pela questão.

Como eu falei no início, a escolha de forma depende de você. Claro que se você conseguir achar alguma lógica entre os temas, e desenvolver um texto com começo, meio e fim, melhor ainda! Apenas note que isso não é estritamente necessário, e pode lhe tomar um tempo precioso enquanto você pensa na melhor forma de estruturar o texto.

Finalmente, gostaria de lembrar que isso vale para discursivas de natureza técnica, como essa do STJ e a maioria aplicada pelo CESPE. Eventualmente você pode se deparar com questões estilo “redação de vestibular”, onde não é pedido para abordar tópicos técnicos, mas simplesmente para falar de um assunto qualquer (ex: temas da atualidade, políticos, sociológicos, etc.). Neste caso, obviamente, eu seguiria uma estrutura padrão de introdução-desenvolvimento-conclusão.

Como sei em qual tópico devo focar? Isto é, se a questão me pede para abordar vários tópicos, em qual devo dar ênfase?

A resposta é: você não sabe.

Veja, por exemplo, o espelho de correção desta prova do STJ. Para os vários tópicos pedidos pela questão, a distribuição não foi igualitária. Alguns valeram dois pontos, outros apenas meio ponto. Veja, por exemplo, este outro espelho de outra prova que fiz (TCU 2008).

correcao_tcu

Note como a distribuição dos pontos para a correção é completamente desnivelada. 14 pontos para um tópico e apenas 5 para outro, sendo que os tópicos, aparentemente, tinham uma “importância” equivalente (processos versus artefatos).

Então, o que fazer?

A minha opinião (e essa foi a estratégia que segui nesta prova) é que você deve dar uma “importância” igualitária aos tópicos, a não ser que algum deles seja obviamente mais proeminente do que os outros, o que não era o caso nesta prova. Note como, para cada tópico, eu dediquei uma média de 6 linhas (um parágrafo) para abordá-lo. Isto acabou me dando certa segurança, pois, como eu não sabia qual seria a pontuação atribuída a cada parágrafo, achei melhor dar um tratamento nivelado a eles. Por coincidência, o tópico cuja pontuação foi diminuída na correção, foi, justamente, aquele ao qual atribuí menos linhas. Não obstante, creio que, neste caso, foi mais por falta de conhecimento mesmo – dei uma enrolada no último parágrafo.

Devo usar todas as linhas disponíveis?

Neste ponto, eu prefiro pecar por excesso do que omissão. Não é uma regra: conheço pessoas que escrevem pouco e conseguem tirar notas boas. Eu costumo escrever, sempre, até, pelo menos, a penúltima linha, a não ser que eu não tenha a menor idéia do que estou falando e minha capacidade de encher lingüiça tenha se esgotado.

Há uma razão simples para isso. Veja o que diz o edital:

“a) a apresentação e a estrutura textuais e o desenvolvimento do tema totalizarão a nota relativa ao domínio do conteúdo (NC), cuja pontuação máxima será limitada ao valor de 10,00 pontos;

b) a avaliação do domínio da modalidade escrita totalizará o número de erros (NE) do candidato,

considerando-se aspectos tais como: pontuação, morfossintaxe e propriedade vocabular;

c) será computado o número total de linhas (TL) efetivamente escritas pelo candidato;

d) será desconsiderado, para efeito de avaliação, qualquer fragmento de texto que for escrito fora do

local apropriado e(ou) que ultrapassar a extensão máxima de 30 linhas, conforme o subitens 8.1 e 9.2.2 deste edital;

e) será calculada, então, para cada candidato, a nota na prova discursiva (NPD), como sendo igual a NC

menos duas vezes o resultado do quociente NE / TL;”

Traduzindo o texto um tanto quanto confuso: sua nota será formada pela pontuação atribuída ao seu conteúdo elaborado, menos duas vezes os seus erros divididos pelo número total de linhas efetivamente escritas. Ou seja, em outras palavras: quanto mais linhas você escrever, menos os seus erros vão pesar. Se você escreve poucas linhas, cada erro de português cometido terá um peso negativo grande na sua final.

É por isso que eu recomendo que você escreva o máximo de linhas que conseguir (sem começar a falar bobagens, claro). Caso o contrário, se você quiser escrever poucas linhas (o que, de forma alguma lhe impedirá de tirar uma boa nota) esteja seguro do que está falando e seja muito bom em português, para garantir que nenhum erro seja cometido.

O que fazer quando tudo dá errado?

Bem, este é tópico para outro artigo, onde darei umas dicas de como contestar a correção de uma prova discursiva, via recurso – feito que não é nada fácil – além de apresentar uma redação nota 10!

É isso, pessoal. Espero que este artigo tenha ajudado a quem tinha bastante dúvida sobre o assunto. Podemos usar este post para montar um FAQ sobre questões discursivas, com perguntas e respostas de fácil acesso.

Não deixem de passar na loja para conferir os últimos produtos do blog.

Abraços, bons estudos!
Nando Pedrosa
Obras do Autor:
Kit FCC de provas comentadas
Prova Comentada: TRT 16 região (MA) – FCC
Prova Comentada: Banco Central do Brasil (2001) – ESAF
Prova Comentada: TRF 5 Região – FCC
Prova Comentada:  TRT 2 Região (São Paulo) – FCC
Prova Comentada: TJ-PA – FCC

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6 Comentários

  1. Paulo Sérgio

    Pedrosa, bom dia

    Gostei das suas dicas, estou participando de um concurso do SEBRAE Nacional, realizado pela INSIGHT para Analista Técnico II – Tecnologia da Informação. Discordo da pontuação atribuida na parte técnica,  o que posso fazer para ter uma segunda opinião sobre a prova discursiva, visto que, meu prazo para recurso é apertado.

  2. rafael

    pedrosa, por favor poste o texto dessa prova do tcu que voce postou… abraços

  3. Walter Cunha

    @valdeny: eh soh acompanhar o Blog. ;)

  4. valdeny

    gostaria de receber notícias como fazer provas discursivas.

  5. nandopedrosa

    Oi Flávia,
    que bom que você gostou das dicas!

    Olha, normalmente, se há bastante tempo sobrando, eu tento fazer um rascunho o mais próximo possível do texto final. Como isso é raro (sobrar tempo), acabo apenas esboçando as idéias principais ao longo dos parágrafos mesmo. Destaco aqueles pontos essenciais, sabe? Em uma prova de 4 horas (o normal do CESPE) eu costumo deixar pelo menos 1 hora para a discursiva, se eu já dominar o assunto. Se não, deixo até mais. De qualquer forma, você vai notar que se tivesse mais tempo, teria feito uma redação melhor. Mas não se preocupe – o tempo é curto para todos!
    Abraços

  6. Flávia Leite

    Oi Pedrosa,
    gostei muito das dicas que você escreveu, só fiquei com uma dúvida: você fez um rascunho antes e depois copiou o texto final ou fez apenas um esboço do que iria falar antes de escrever?
    []´s

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