Trajetória: Walter Cunha – Parte I: Crepúsculo

Bom, Pessoal,  atendendo a pedidos, vou finalmente começar a descrição da minha trajetória… 🙂

A primeira vez que realmente eu decidi estudar para concursos foi quando eu estava nos EUA pela FAB em uma missão de traferência de tecnologia (e Deus Salve o ITA!). Lembro que o gatilho foi o anúncio da autorização de vagas para o concurso da Polícia Federal de 2004. Eu me empolguei pelo cargo de Perito Área 02, pois sou engenheiro eletrônico de formação, e o salário era o mesmo de Delegado, um dos mais altos do executivo federal, mais do que o dobro do que eu ganhava. Nada mau…

Poréééém… Se eu começasse a história por aqui, muitos iriam achar que eu sou algum tipo de superdotado, que nasci com o traseiro virado para a Lua, ou ainda algum tipo de privilegiado. Sendo assim,
vou seguir o exemplo do parceiro de estudos, Gledson Rabelo, e retornar “um pouquinho” na minha estória. Por isso, a divisão em partes, mas prometo me ater a aspectos que motivem os estudos de vocês. Ok?

Crespúsculo…

Nasci em uma família muito humilde – até dois salálios mínimos -, filho de um alfaiate e uma professora aposentada. Nunca precisei estudar à luz do poste da rua (como alguns se orgulham de falar) ou passei fome, mas, luxo, zero, zero mesmo. Para se ter uma idéia, apesar de própria, minha casa era de taipa…

Obviamente, estudei sempre no mesmo colégio público até a 8va série. O ambiente entre  a casa e a escola não era muito inspirador, se é que vocês me entendem…. Vários amigos se perderam no caminho. Porém, em meio a tudo isso, talvez por ter sido professora, minha Mãe conseguiu gravar permanentemente na minha cabeça que “estudar era a coisa mais importante do mundo”, principalmente para quem era pobre. E mantive o programa!

Seguia como um nerd, adepto dos komenings, até que na 8va série veio o que parecia ser uma luz: um professor meu era também professor da ETFCe! Essa cara podia me ajudar! Minha Mãe sempre falou que aquilo era o nirvana: escola com piscina e de graça, bastava passar em uma prova. Partindo do pincípio que eu nunca tinha visto até ali o que era trigonometria, isso poderia ser um obstáculo. Fora isso, mesmo os alunos das melhores escolas particulares concorriam àquela prova, só para não precisarem pagar mais mensalidade. Mas eu tinha um “trunfo”, um cara lá de dentro, um professor justamente de matemática!

É… mas alegria de pobre dura pouco. Quando fui falar com o “dito cujo carcará sanguinolento”, o cara disse que: “aquilo não é pra você, é muito difícil…”. Peeeense no fela! Não guardo mágoa, ainda mais levando em consideração a condição em que eu me encontrava.  Aí, veio outra coisa que desenvolvi, embora não saiba precisar com quem: “a não desistir facilmente diante dos desafio”. Tentei a primeira vez, fumo e apredizado, tentei novamente, fumo e aprendizado. Já tava ficando safo na prova e na próxima entraria com certeza!

Mas… Na semana véspera da prova, meu Pai faleceu… Legal? Em meio à perspectiva de redução de metade da renda da casa, tive que tomar a difícil decisão de estudar paralelo ao velório. Sei que ouvi muita coisa: é um insesível, frio, etc. Eu tinha 13 anos… Engoli seco,  e, ainda sem saber trigonometria, fui lá e arranquei a última vaga do curso de preparação interno para eletrotécnica (o famoso PRÓ-TÉCNICO!), os 10 primeiros entrariam direto. Eu ainda não podia pular na piscina, mas já estava lá dentro da a ETFCe, o nirvana!

E adivinha quem eu encontrei lá? O professor da 8va. Bom, mas agora que eu provei pro cara, ele iria me ajudar. Doce ilusão… Em meio ao desespero das provas, o cara vinha e me botava mais pra baixo: “dá não, né?”. Sério! Pois, mais uma vez, eu fui lá novamente e arranquei o 8vo lugar do curso de eletrotécnica (minha mãe escolheu por mim). Agora, eu tava dentro! Se eu já podia pular na piscina (E pulei! Fui até da equipe de natação… ), o resto seria só ladeira…

Doce ilusão… Ao entrar, percebi como a minha formação havia sido fraca no ensino público.  Eram cinco aulas diárias, mas você poderia pedir um sexto período para os professores para reforço. Ninguém ia, até eu chegar. 🙂 Imagine como os professores me adoravam… Meu apelido nessa época era “chorão”, porque eu sempre dizia que não sabia de nada do que tava sendo dado e o povo achava que era onda. Destaco a importante ajuda do meu padrinho, também era professor, o qual me deu muitos livros do professor,  que eu não podia comprar, para ajudar nos estudos. Adaptei-me, peguei a manha, e comecei a me destacar.

Tudo ia bem, eu me formaria técnico e acabaria trabalhando em alguma têxtil do pólo de Fortaleza. Só felicidade… Até que veio um cara do Mararanhão, com que fiz amizade, e só falava em um tal de ITA, pronto, fui apresentado a um novo nirvana! Mas eu tava indo tão bem… 🙂

Mas isso é assunto para a próxima parte (se você ainda tiver saco).

Até lá! 🙂

WC

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Walter Cunha

O professor Walter Cunha é pós-graduado em Gerência de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e Engenheiro Eletrônico pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica ( ITA).

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8 Resultados

  1. ivaneide disse:

    Muito boa  WC.
    São estas histórias que nos mostram que o início não define a jornada ou sua conclusão.

  2. Krisnamourt disse:

    Walter, já li a parte I e II. Estou ansioso para ver o resto!

    Muita coisa até os vestibulares está muito parecido comigo!
    Ralei para entrar na ETFC e foi pelo Pró-Técnico. Entrei em Telecomunicações. Fiz cultura também e assíduo praticante dos Jetec’s, Teatro, Parafolclórico, Festivais, etc.
    Na época dos vestibulares, “embioquei” na UFC, IME e UECE. Por ironia do destino só deu UECE , me alistei no NPOR do Exército e engravidei a namorada … Putz!!!! Mudou tudo!
    Papai mais cedo, tive que encarar ser Tenente R2 no Décimo GAC (Viva a Artilharia!). Foram 6 anos brincando de Exército e botando os “tabacudos” para beber sangue de Cabra!  Hehehehe!!!!
    Quando sai do Exército, tive que tirar o diploma de Técnico de Telecomunicações da gaveta e recomecei no mundo das Tecnologias, onde estou até hoje!!!!
    Cara, parabens pela narrativa! Fiquei tão emocionado e contente por suas linhas que estou imprimindo a “Saga Crepúsculo” para inspirar meu filhos (…  são 4…Afinal sou Cearense…e boto pra lascar!)
    Abraços.
    Krisnamourt

  3. Julio disse:

    Fala Walter, Adoro ler essa seção trajetória do blog, pois são histórias como a sua e a de outros colegas que nos dão forças para nunca desistir do que realmente queremos.
    Estou ansioso para ler a parte II.
    Abraço.

  4. Carlos Markennedy disse:

    Olá Walter,
    Legal a sua história. Grandes histórias foram “escritas” por pessoas que começaram pequenas, muito pequenas… bom é saber que é possível a TODOS mudarem o rumo de suas vidas e  a dos que os cercam. Sei que é mais difícil para àqueles que dispõem ou dispuseram sempre de poucos recursos, mas estes quando decidem conquistar algo, ninguém os tira o prazer e o mérito de conseguir…
    Também tenho uma história PASSADA difícil. Hoje as coisas estão bem melhores, mas aspiro alguns degrais mais acima, e sei que é questão de tempo para alcançar.
    Atualmente sou funcionário Federal de uma Universidade.
    Parabens por tudo, e obrigado por esse espaço.
     

  5. aline disse:

    inspiradora sua história! o que vale é a perseverança: desistir nunca, render-se jamais!

  6. Marcos disse:

    Fala Walter! Você realmente têm um história de luta muito bacana. Não tive metade dos seus obstáculos, porém venho começando a luta para passar em um concurso público da área de T.I aos 29 anos. Ganho muito bem trabalhando na área de T.I como PJ em várias empresas (com meu CNPJ), no entanto estou buscando mais qualidade de vida, um bom salário e estabilidade… Estou começando a reunir o material de estudo e se puder me envie um e-mail com algumas dicas… abç

  7. Alayr Sobrinho disse:

    Mas rapaz! Num é que comigo acontceeu igualzinho! Um tio com quem eu morava (morei muito tempo na casa de parentes) se deu ao trabalho de ter uma conversa “séria” comigo. Disse pra mim que o ITA era coisa de rico, que eu era pobre e que era melhor eu esquecer disso. hehehhee
    Infelizmeente eu num tinha a cabeça chata de cearense e acreditei. 🙂
    Paciência!

  8. Cristina disse:

    Ai tô doida pra ler o resto!!!
    Parabéns pela sua simplicidade, por acreditar em você, pela sua garra, por ser um excelente moderador da lista e principalmente por ser cearense!!! 😀

    Abraços!

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