Trajetória: Walter Cunha – Parte II: Lua Nova

Lua Nova…

Na ETFCe, aprendi a beber, a curtir rock (Janes, Jimi, Jetro, etc), cutuar o Che, ser um revolucionário de copo. Enfim, evoluí para um “Kami-kaze-ning”. Porém, sempre matendo o programa! Nessa época, cheguei até usar aparelho de coluna, por causa de um desvio decorrente da má postura ao estudar e ao fato de nunca ter gostado de leite. Grande erro! Daí vocês imaginam como eu era popular com o mulherio (salve as semi-hippies e o seu desprendimento!).

Aquele meu amigo do Maranhão havia abandonado o curso da ETFCe no meio para ir fazer um preparatório para esse tal de ITA. Um louco! Pensei… Rapaz, pois não é que um belo dia encontrei o cidadão na piscina da ETFCe e eu não sei como se deu direito o negócio, mas ele me convenceu, em meia hora, a desistir de me matricular no vestibular da UFC (estava com a inscrição na mão!), a trancar a ETFCe no penúltimo semestre e sair do meu curso gratuito de inglês das Casas de Cultura só para estudar para a prova que daria uma vaga para o PREPARATÓRIO para o ITA. Pense na troca! Até hoje ainda acho que a única explicação é a de que meu amigo me aplicou o golpe do Satã Imperial…

Minha mãe chorou, mandaram eu passar por acompanhamento psicológico na ETFCe (Sério!), mas não teve jeito. Agora, eu queria ser Engenheiro do ITA! Os caras do ITA eram tratados como Jedis no Ceará, no Brasil, e eu queria ser um. Então, consegui com o meu amigo do Maranhão as provas anteriores e as resolvi junto com o professor Iran de matemática da ETFCe (sou muito grato a esse cara!). Ele que me botou o apelido de “chorão”. Lembram? Foi um período de estudo muito intenso e com uma série de cimitarras pairando sobre o meu pescoço.

Pois bem, no dia da bendito exame de admissão, adivinhem o que aconteceu? O GEO resolveu repetir a prova do ano anterior, uma das que eu tinha desossado com os meus estudos. Antes que vocês pensem que foi algum tipo de fraude, todos mundo tinha aquelas provas, era a praxe, mas só eu tive a disciplinas de resolvê-las todas. Afinal, não tinha os livros fuderosos para estudar, os outros tinham… Finalmente a vida tinha me dado um beijinho em vez de uma trosoba! O passeio foi tão grande que eu mesmo resolvi errar um sinal de propósito em uma questão para não tirar um 10.00. Tirei 9,5… 🙂 E o segundo lugar? 6,5!

Um dia, ao chegar na ETFCe para alguma coisa, percebi o povo me apontando e vindo perguntar se eu era o “Walter do Geo”. Quando eu confirmava, o povo me olhava meio aterrorizado e saía. Só então me dei conta que o resultado havia se tornado público e eu havia passado a ser considerado um “Deus entre os mortais”, o “Monolito Vivo”.  Tentei até andar sobre as águas da piscina da ETFCe, mas ainda não tinha chegado a esse nível, afinal eu havia apenas vomitado a prova. Como seria depois?

O Farias Brito (FB), o concorrente, tomou conhecimento do feito, pois um dos coordenadores era meu vizinho e minha mãe foi tirar onda com ele no meio da rua. Pra quê… Deu-se então uma batalha velada entre os dois colossos de Fortaleza tentando arrebanhar o “The Chosen One”. Soube depois que até o coordenador do colégio havia levado a minha mãe a outra cidade, como chofer, para ela poder receber a aposentadoria.

Saldo da batalha: os uniformes do colégio, todas as xerox que eu precisa-se durante o ano de graça, 40 livros a minha escolha, lanche de graça na cantina do colégio (segredo de estado!), coloquei 9 amigos a minha escolha com bolsa integral também (7 no FB e 2 no GEO), a passagem aérea de ida para onde eu decidice ir ao final, e o que arrematou mesmo, ofereceram uma vaga para o meu irmão que na época estava desempregado. Fui para o FB! Porém, eu não me considerava um mercenário, afinal, o leilão que fiz foi apenas para conseguir coisas que iriam me auxilar no meu estudo.

Só que tinha um problema… Será que eu iria corresponder às expectativas? Tava todo mundo de olho em mim e eu morrendo de medo, dada a minha forma exótica de entrar. Então, cai de boca nos estudos. Tornei-me uma máquina. No meio do ano, já me colocaram para fazer os vestibulares locais e arrastei um segundo lugar geral da UECE (perdi por 2 pontos…) e o primeiro em elétrica na UNIFOR. A UFC só oferecia vagas no final do ano. No fim do ano, eu já não era mais humano…  Eram 9hs só em sala de aula, mas as horas de casa, provas aos sábados, e aos domingos! Quando chegaram os vestibulares militares, eu passei o rolo compressor:  Marinha Mercante, Escola Naval e AFA, todos entre os primeiros lugares nacionais.

Mas aí, a vida baixou minha bola. Foi até bom. Eu queria muito o ITA, mas o IME também serviria. Ou seja, a prova do IME seria a primeira a vera, e eu tomei um fumo histórico! A prova de matemática foi mais insana de todos os tempos, eles tiveram que reduzir a média à metade para completarem as vagas e, mesmo assim, eu não entrei. Fiquei paralisado de tão difícil que a prova estava. Se eu sabia alguma coisa, nem isso eu fiz. Foi a primeira vez que me deparei com a insanida de uma banca. Mas só o que vinha à minha cabeça era que na hora do “vamo ver” eu havia afinado…

Quando chegou a prova do ITA, meus amigos estavam muito animados, pois haviam se dado bem no IME, e eu estava na “mais completa e absoluta pastosa”. Para piorar, o resultado do IME saiu durante as provas do ITA e a fatalidade se confirmou, eu não havia passado. Melhor não poderia ser, né? Aí, entrou em cena uma outra coisa que eu aprendi na vida: a capacidade de abstração! Eu não me deixei abater, pelo menos na hora da prova, eu entrava em transe, no fluxo. Além disso, eu havia apostado nas matérias que ninguém estudava, principalmente o inglês. A tática (ou estratégia?) funcionou! Quando a prova terminou, alguma coisa me dizia que eu havia passado. E então, um belo dia o telefone tocou na casa da minha irmã (na casa de taipa não tínhamos telefone), era o FB comunicando a minha aprovação!

Agora, eu seria um Engenheiro do ITA! Mas isso fica a próxima parte, Eclipse… 🙂

WC.

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Walter Cunha

O professor Walter Cunha é pós-graduado em Gerência de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e Engenheiro Eletrônico pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica ( ITA).

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5 Resultados

  1. Anderson Calixto disse:

    Cara, muito boa a história, já to sendo teu fã! hehehe Também sou do Ceará, formado em Ciências da Computação na UEVA (estadual vale do acaraú), e estou começando na jornada de concursos, fiz o do TRT/CE em outubro e agora o do BACEN, foi razoavel o resultado, mas preciso estudar beeeem mais! abraço e espero ler a continuação! 🙂

  2. Pedro Ceolin disse:

    Walter bota a parte 3 meu filho. Isso ta bom demaissss!!!!!
    Parabéns pelas conquistas !!!!

  3. Markennedy disse:

    Walter, tem algumas coisas interessantes na sua história de vida, e que é muito importante externalizar para todos, pois isso dá ânimo, encoraja e pode mudar o pensamento dos que não se acham capazes. Dentre elas, o fato de nascer pobre, sem recursos, não implica que sua vida toda será assim. E outras características que fazem toda a diferença dentre os seres que “tem capacidade de pensar”: A determinação, a força de vontade, a objetividade, o saber para onde está indo. Percebo bem que você tinha um norte, um objetivo (1 – Entrar na ETFCe e 2 – mesmo que influenciado (chamo isso de apresentado a algo novo e que parecia bom) o ITA. Quando sabemos para onde vamos as coisas ficam mais fáceis, quando não sabemos para onde remar, “nem um vento lhe é favorável”. Aguardo a continuação.

  4. Krisnamourt Correia disse:

    Walter, já li a parte I e II. Estou ansioso para ver o resto! Muita coisa até os vestibulares está muito parecido comigo! Ralei para entrar na ETFC e foi pelo Pró-Técnico. Entrei em Telecomunicações. Fiz cultura também e assíduo praticante dos Jetec’s, Teatro, Parafolclórico, Festivais, etc. Na época dos vestibulares, “embioquei” na UFC, IME e UECE. Por ironia do destino só deu UECE , me alistei no NPOR do Exército e engravidei a namorada … Putz!!!! Mudou tudo! Papai mais cedo, tive que encarar ser Tenente R2 no Décimo GAC (Viva a Artilharia!). Foram 6 anos brincando de Exército e botando os “tabacudos” para beber sangue de Cabra! Hehehehe!!!! Quando sai do Exército, tive que tirar o diploma de Técnico de Telecomunicações da gaveta e recomecei no mundo das Tecnologias, onde estou até hoje!!!! Cara, parabens pela narrativa! Fiquei tão emocionado e contente por suas linhas que estou imprimindo a “Saga Crepúsculo” para inspirar meu filhos (… são 4…Afinal sou Cearense…e boto pra lascar!) Abraços. Krisnamourt

  5. Rodney disse:

    Rapaz, muito boa essa sua história.
    Também cursei ETFCE.
    Mas estou gostando …
    Obrigado.

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