Trajetória: Walter Cunha – Parte III: Eclipse

Eclipse…

Continuando… Quando eu cheguei em São Paulo em um Pau-de-Arara com meu  matulão… Opa, esse é o Lula… 🙂 No meu caso, o FB me deu a passagem aérea por eu ter passado no ITA, cumprido o prometido. Fui de VASP (É a nova!!!). Mas a mala e as roupas de frio eram emprestadas.

Pois bem, quando eu cheguei ao sonhado ITA…   trote! Porém, à noite
…  trote! Só que depois…  mais trote! Só que aí, chegaram os veteranos cearense…  Ah, agora sim… mais trote! Resumindo, foi isso durante todo o meu primeiro ano. O trote no ITA é pesadíssimo (psicologicamente falando, na há violência física…) e contínuo, muitos desistem. No meu caso, essa agitação ajudava a esquecer a saudade. Existe um lema lá: “Aqui não é a Disneylândia!”. Sacaram? Eu sempre mantive a grana do ônibus de volta, e assim dizia a mim mesmo: “De desistir, qualquer um é capaz!”. E eu não estou floreando. Eu pensava assim mesmo.

Nossa turma foi uma turma mítica, a 00 (últimos dois dígios de 2000), cheia de marcos: a primeira da História a ter mulheres (3, que restaram, para 400 machos, iuuupi!…); turma do milênio (embora isso fosse tecniamente incorrento). Todos esperavam que nós trouxéssemos equilíbrio à Força, porém, o que veio foi a “invasão” do alojamento pelos militares (não foi tão dramático assim…), setorização das turmas, tentativa de fim do trote, desligamento por cola, etc. E os veteramos ficaram com raiva da gente. Quanta bobagem!

O ITA era uma escola muito diferente do que eu pensava. O Bizu lá era não estudar. Pode? Se estudasse muito, você era discriminado, era chamado de “Câncer”, uma vez que poderia levantar a curva de notas e, consequentemente, fazer os outros terem que estudar mais também. Ou seja, você espalhava seu comportamento com um verdadeiro câncer. Estudo mesmo, só podia na véspera da prova. Você tinha que ser (ou se mostrar) um cara social, um “Mestre” (aquele estuda pouco e manda bem). Era comum vermos pessoas com livros técnicos envoltos em uma Playboy ou uma Caras para ninguém saber que o cidadão já estava estudando (essa filosofia de improviso ajuda muito na Engenharia, mas é fatal para os concursos).

Arrogância e marra erram quebradas (brutalmente) a base de trote para manter os egos na Terra. Violência física era caso de expulsão sumária. E o mais importante: a famosa Disciplina Consciente (DC), filosofia pela qual você não podia colar (mesmo que você fizesse a prova sozinho, no seu quarto) ou cometer qualquer tipo de fraude, por exemplo, botar chifre em alguém (outro iteano, claro…). E funciona… Inclusive, até depois de formado, o povo meio que se vigia para manter o conceito da escola. Parece que você faz parte de uma sociedade secreta, a que te trás vários benefícios como se poderá ver a frente.

No meu ano também, o alojamento e a saúde passaram a ser cobrados de um valor “simbólico”, o que para mim não interessava de qualquer jeito, pois, não fui munido com “as roupas e as armas de Jorge”, mas tinha o meu indefectível “Atestado de Pobreza” (sério!) Um AP é um documento pelo qual uma autoridade declara você é hipossuficiente na forma da lei (ainda tenho e pretendo emoldurá-lo), ou seja, não adianta cobrar nada. Na verdade, eu disputava com mais uns 2 quem era o mais liso da turma… Quanto aos livros, o ITA era muito bom. Os veteranos passavam tudo aos novatos (dos quais eles gostavam, básico).

Tinha outra coisa boa (pelo menos, para mim) que era o CPOR. A gente vestia farda e recebia instrução militar uma vez por semana e ganhava o que equivalia a 1 (um) salário mínimo, eu acho. Massa! Abri um conta de banco e tive me primeiro cartão. Eu tava estribado! Ao chegar em Fortaleza, nas minhas primeiras férias, 7 Kg mais magro, eu parecia o cavalo-do cão! Minha Mãe chorou quando me viu esquelético (igual a um Lango-lango) e não queria mais me deixar voltar, mas ela quase não me via em casa para me dizer isso. Lembro que comecei a freqüentar os locais mais refinados de Fortaleza para o meu nível de grana: Mansão do Forró (onde passei o Natal), Brisa do Lago (onde passei o ano novo) e o Siqueira Clube. Agora, eu fazia parte da elite! O próprio Bodegueiro da FIEC! Se na ETFCe eu aprendi a beber, no ITA eu aprendi pisar na Jaca com gosto. 🙂

No segundo ano, acabou a farra do CPOR e eu tive que me viarar para arranjar grana. Tive que dar aulas em pré-vestibulares e participar de bolsas de iniciação científica, e mesmo assim foi uma época das vacas muito magras, ou seja, estava em casa novamente (Heheheh). Cheguei a receber parte do pouco que a minha família ganhava, quando a coisa ficou Russa. Aqui, em meio a essa liseira, conheci a miha Bela (Se eu não falar dela antes do “Amanhecer”, ele já disse que me mata).  Ela tá ali olhando agora mesmo com um cabo de mouse na mãe (é, ela também é da TI…)

No ITA, por conta da projeção da escola, só a liseira pede para virar militar depois de ter entrado como civil. Ou seja, É nóis! O pessoal civil fica na pindaíba durante o curso, mas depois galga empregos de ponta. Os militares começam a ganhar como oficiais, mas têm que servir 5 anos depois de formados. Pense na dúvida para uma pessoa na minha situação… 🙂 Mais uma lição: A origem sempre cobra o seu preço, não importa onde você esteja! Depois de me “conformar”, no começo do terceiro ano, eu virei um Aspirante-a-Oficial (um quase tenente) e nunca tinha visto tanto dinheiro na minha vida. Aí, veio o carro, as viagens, etc, mas nunca deixei de mandar dinheiro para casa (o que continua até hoje…). Eu viajei muito, fiz muitos amigos de todos os cantos do Brasil, aprendi a ser tolerante, mas fiquei “um pouco” arrogante. Talvez, por ter tanto conhecimento e pouca experiência.

O que foi mais difícil no ITA? As provas? Sim, o estudo no ITA era muito pesado e, portanto, as provas. Porém, eu diria que o mais difícil mesmo era tentar descolar alguma coisinha (se é que vocês me entendem…) nos finais de semana à noite, liso, com um sotaque de Paraíba(RJ)/Baiano(SP) e com a aparência de um Lango-lango (antes de conhecer a Bela, é claro…! :)). Ah, meu fí (=filho), isso, sim, era muito difícil! De modo a manter minha sobrevivência, aprendi outra lição de um veterano: “Ao lado de uma magra nojenta, tem sempre um fortinha sorrindo. E, acredite, as fortinhas são sempre solidárias”! O cara não era nenhum John Nash, mas mudou a minha vida…

Bom, falando de Iteanos, em praticamente todas as grandes cidades (Regionais) há encontros de todas as gerações anualmente e um encontro geral em SJC. É muito engraçado ver os mais velhos e os velhinhos te chamando de “bixo” e querendo te dar trote em meio a um churrasco. Aí, quando tu vai conversar com o cara, descobre que ele é dona da Locaweb, Diretor da IBM, Diretor da Troller, enfim, só as “crianças”… É comum chegarem também os velhinhos em cadeiras de rodas das turmas dos anos 60. Isso é ser iteano. 🙂

Mas, voltando ao João do Santo Cristo… Nos últimos dias de ITA, havia uma apreensão entre os Aspirantes com relação a lotação após a formatura. Sai a primeira prévia: metade vai para Manaus-AM (Selva!), com o meu nome incluso. Eu queria ir para Recife-PE! Sai a segunda prévia: metade vai para Manaus-AM (Selva!), mas eu já conto como indo para Recife (Hehehehehe…). Por fim, sai a listagem definitiva! A FAB havia descoberto que simplemente não havia engenheiros para tocar o Sistema de Vigilância da Amazônia (SIVAM). Um problema? Probema resolvido! Pega todos os formandos militares do ITA e manda para Manaus-AM. Simples assim!  🙂

Lembro que foram 20 dias de “embriaguez e desordem no primeiro escalão”  aguardando a liberação final, à beira da piscina, ao som de Amazônicamente Amor (Corta Fogo), Vermelho (Fafá de Belém) e TIC TIC TAC (Carrapicho). Usei praticamente todo o dinheiro da minha transferência (para Manaus é uma bolada) para construir a casa da minha Mãe: um duplex de TI-JO-LO!  \o/

E, assim, eu fui mandado para Amazônia… Cheguei no Aeroporto Eduardo Gomes (EG) de mala e cuia, sem saber o que me esperava… Mas isso é assunto para o “Amanhecer”! 🙂

Até lá!

WC

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Walter Cunha

O professor Walter Cunha é pós-graduado em Gerência de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e Engenheiro Eletrônico pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica ( ITA).

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1 Resultado

  1. Fabiano Damasceno disse:

    Walter, dá para escrever um livro interessante com sua história. Parabéns, cara…

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