Depoimento TCU 2010 – Antes Tarde do que Nunca – Matheus Petronillio

— Mais um Imigrante que Veio do Ceará e Prosperou nessa Brasília —

Vou logo avisando que ficou bem maior do que eu esperava. Deu quase um
livro… 🙂

Minha vida de concurseiro começou cedo. O primeiro concurso foi para
ingresso no Colégio Militar de Fortaleza. Eu era um ótimo aluno, mas
estudava em uma escola que, se não era das piores, também não era das
melhores. Junta-se a isso o fato de eu não ter tido uma boa preparação e
concluímos algo bastante plausível: não sabia quase nada da prova. Em
resumo: não passei!

OK. Lá fui eu estudar em outro colégio.
Quando conclui o ensino fundamental, me inscrevi para o meu segundo concurso: teste de seleção para a antiga Escola Técnica Federal do Ceará. Como a gente aprende com os erros, dessa ez me preparei bem e passei em 3o. lugar para o curso técnico de Eletroeletrônica. Tive uma grande ajuda do meu professor de matemática na época. Também aprendi uma coisa muito importante nesse concurso: não adianta só ser especialista se também não for um pouco multidisciplinar. Dois colegas que eram MUITO melhores que eu com matemática não passaram pois eram fracos na redação.

A ETFCE foi uma das, se não a mais importante instituição na minha vida de
estudante. É um mundo diferente das escolas tradicionais. Você normalmente não é obrigado a assistir as aulas e quando pergunta pra um professor por qual livro é pra estudar a matéria o camarada te dá uma lista de cinco. Ou seja, é uma escola de ensino médio com modelo de universidade. Por bem ou por mal você acaba adquirindo mais cedo a maturidade que seus colegas que estudam em escolas tradicionais só vão adquirir depois que entrarem na universidade. Na ETFCE eu também aprendi cedo a calçar as sandálias da humildade. Tirar notas 1,0 e 3,0 quando se estava acostumado a tirar 9,0 e 10,0 tem faz pensar: “É… aqui as coisas são diferentes!”

O 3o. concurso foi o vestibular para a Universidade Estadual do Ceará. Um
problema de logística na aplicação da prova fez com que o número daqueles
fiscais que te acompanham para ir ao banheiro fosse insuficiente. Como não
dá pra raciocinar direito com a bexiga cheia, acabei não passando. De certa
forma não foi muito problemático, pois passei no 4o. concurso, o vestibular
da Universidade Federal do Ceará. Nesse último tinha bastante fiscal e eu
também manerei na água só pra garantir. 🙂

Apesar de não ter o Pedigree de escolas como ITA/IME, a UFC me propiciou uma formação muito boa. E, falando em universidade, a minha opinião é: uma formação universitária sólida e de qualidade é meio caminho para aprovação eu um concurso TOP. Acho que quem ainda não terminou a universidade deve pensar nesse assunto com “carinho”.

Mas, deixando de trololó, vamos ao que realmente interessa: meu primeiro
concurso público de verdade (5o. concurso), para trabalhar para o governo.
Foi para a especialidade de operação de computadores, nível médio, TRE-CE em 2002. Pra ter uma ideia do meu nível de proficiência em direito
administrativo, olha a questão que eu errei:

Entre as retribuições, gratificações e adicionais a que têm direito os
servidores públicos NÃO se encontra:

(A) o adicional de férias.
(B) o adicional pelo exercício de atividades insalubres, perigosas ou penosas.
(C) a gratificação natalina.
(D) o adicional noturno.
(E) o fundo de garantia por tempo de serviço.

Claro, não preciso dizer que não passei. Mas valeu pra reforçar a tese: não
adianta só ser especialista se também não for um pouco multidisciplinar.
Tirei uma das melhores notas na parte de TI (faz muito tempo, mas tenho uma
vaga lembrança de ter sido a melhor nota), mas não atingi a nota de corte na
parte de noções de direito.

O 6o. concurso veio só em 2004. Estava no penúltimo ano da faculdade e fiz
pra Técnico de Informática do MPU sem estudar nada. (Daqui pra frente,
entenda-se que sem estudar nada quer dizer sem estudar especificamente para o concurso. Como disse anteriormente, os estudos da universidade foram muito importantes.) Novamente tirei uma das melhores notas na parte de TI e novamente tirei uma péssima nota na parte de direito. Só que dessa vez dei a sorte de não ser eliminado na prova de conhecimentos básicos. Minha pontuação não me garantiu uma vaga em Fortaleza, mas consegui uma vaga na minha segunda opção: Brasília. E agora? Não tinha terminado a faculdade ainda, mas o salário era mais de dez vezes o que eu ganhava com a minha humilde bolsa de iniciação científica do CNPq. Nunca fui pobre, mas venho de uma família de classe média baixa. O salário ia fazer uma diferença enorme.
Depois de muito pesar os prós e os contras, resolvi assumir com uma
condição: se em um ano não conseguisse transferir a faculdade para a UnB
iria chutar o balde e voltar pra minha bolsa do CNPq, afinal de contas,
minha formação era prioridade e eu não estava passando fome.

Como muitos já devem imaginar, conseguir transferência pra um curso da UnB é mais difícil do que passar na prova do TCU. 🙂 Mas como eu sou brasileiro e não desisto nunca, já que não dava pra transferir, dava pra prestar vestibular e conseguir a vaga na marra. E foi o que eu fiz. Foi uma das duas vezes na vida que eu estudei de verdade, com compromisso comigo mesmo, cronometrando tempo, seguindo planejamento, de domingo a domingo (separava sempre uma tarde, ou de sábado, ou de domingo, pra sair e desopilar). Veio o vestibular (7o. Concurso) e eu passei.

Pensei: pronto, tá resolvido! Consegui conciliar o concurso com a UnB e
depois da avaliação das disciplinas que já cursei na UFC, devo me formar com
uns 6 meses de atraso! Pois é, só que não foi assim que aconteceu. Pra
começar com o pé esquerdo, quando fui conversar com o(a) coordenador(a) do
curso na época, ouvi a seguinte frase: “É, estou vendo aqui no seu histórico
escolar que suas notas na UFC são muito boas. Vamos ver se você vai
conseguir esse mesmo desempenho aqui na UnB!!”. Pensei eu: “Por que não
conseguiria? Por acaso estou ingressando no MIT?”. Mas deixei pra lá e não
falei nada. Comentário completamente desnecessário, pra não dizer maldoso.
Simplesmente dei entrada no pedido de aproveitamento das disciplinas já
cursadas e esperei o resultado. Enquanto isso, fui cursando disciplinas com
quebra de pré-requisito. Só que quando sai o resultado do aproveitamento,
tive a sensação, de a avaliação foi feita pela mesma equipe que avalia os
recursos das provas do CESPE. Ou seja, não aproveitaram quase nada das
disciplinas que eu tinha cursado até o momento na UFC. Simplesmente jogaram
metade da minha graduação no mato. E olha que as notas que eu tirei na UnB
foram melhores que as que tirava na UFC, só pra deixar registrado.

Diante desse fato, minha estada em Brasília estava com os dias contatos.
Comecei a arrumar a vida pra voltar pra minha bolsa do CNPq. Mas comecei
também a procurar concursos em Fortaleza que eu pudesse fazer e de olho na
contagem regressiva. Fiz um concurso pra técnico do SERPRO (8o. concurso) e
passei. Só que a nomeação demorou muito e não adiantou nada (Fui nomeado no
final de 2007, quando já estava novamente em Brasília). E fiz também um
concurso para técnico do DNPM (9o concurso). Não estudei tanto pro concurso
do DNPM, mas consegui cobrir toda a parte da legislação do órgão e algumas
outras coisas de geoprocessamento que eu não sabia nem que existiam, já
tentando corrigir as falhas dos concursos passados. Passei em primeiro
nacional e, mais importante que isso, em primeiro para a única vaga que
tinha pro Ceará. Foi muito bom, pois ia voltar pra UFC mas não na mesma
liseira da bolsa do CNPq.

Depois praticamente um ano no DNPM, estava terminando a faculdade e apareceu
um novo concurso para o MPU (10o concurso). O salário de analista era umas
quatro vezes o que eu ganhava. Lembrei de um ensinamento de minha antiga
chefe: “Que mal faz se paga mais?”. Não deu pra estudar muito pois
trabalhava oito horas por dia, e estava fazendo 26 créditos pra conseguir me
formar naquele semestre. Mas deu pra estudar todo o conteúdo de direito, que
era onde eu sempre levava fumo. Passei em primeiro lugar (se tivéssemos uma
hipotética classificação nacional, seria o terceiro).

Entre a prova e o resultado do MPU, fiz o concurso do TRE-PB (11o) e da
SEFAZ-CE (12o), mas não passei em nenhum dos dois. No TRE-PB acho que fiquei
em 30o e na SEFAZ-CE não me lembro. Na época achei que o nível dessa prova
específica da SEFAZ-CE foi semelhante à prova do TCU 2009, ou seja, foi
FODA!

Tomei posse na Procuradoria Geral do Trabalho e comecei a trabalhar. A
partir desse ponto, decidi que queria ser perito criminal federal. Comecei a
estudar num ritmo BEM LIGHT com esse objetivo. Estudava entre uma e duas
horas por dia e quando não estava muito afim não estudava. Nesse ritmo fiz o
concurso do TCU de 2007 (13o) e não passei. E depois fiz o de 2008 (14o) e
também não passei. Como meu único objetivo no TCU até aquele momento era o
“Que mal faz se paga mais?” e como meu foco era a PF, nas poucas horas de
estudo eu só me dedicava ao provável conteúdo da prova da PF. Ou seja, nada
de COBIT, ITIL, CMMI, Controle Externo, etc. Realmente não tinha como passar
nas provas do TCU a não ser por pura sorte.

Em 2008 saiu o concurso da CGU (15o). Novamente eu pensei “Que mal faz se
paga mais?”. Mas dessa vez eu também pensei “Vou parar de jogar dinheiro
fora, tomar vergonha na cara e estudar pelo menos superficialmente as
matérias que eu nunca vi na vida”. E foi isso que eu fiz. Nesse mesmo ritmo
de 1 ou 2 horas de estudo por dia eu deixei de lado o conteúdo da PF por
umas duas semanas e estudei as coisas que eu nunca tinha visto na vida:
COBIT, ITIL, CMMI, etc. Resultado: passei na CGU em 5o lugar.

Só que na CGU eu não passei só por mérito meu não. Eu não estudei nada de
Controle Interno e chutei todas as questões dessa matéria, mas a sorte
estava do meu lado e deu pra fazer o mínimo. Só que não só estava do meu
lado como se agarrou em mim. Na discursiva de conhecimentos básicos caiu um
tema viagem sobre o posicionamento de um autor eu não conhecia. Fiz o que
qualquer um faria: ENROLATION. Só que parece que não era só eu que não
conhecia o tal autor. Aparentemente NINGUÉM ou QUASE NINGUÉM conhecia o tal
autor e no final das contas só foi considerada a parte da nota de língua
portuguesa da redação (boato não confirmado pela ESAF). Oras, se nem eu me
daria a nota que eu tirei, por que a ESAF deu?

Bom, mas o que importa é que eu passei. De bolsista do CNPq a Técnico de
Informática do MPU a Técnico em Atividades de Mineração a Analista de
Informática do MPU a Analista de Finanças e Controle da CGU. Até que eu tava
indo bem. No “Que mal faz se paga mais?” eu já tinha multiplicado por 40 a
minha remuneração inicial de bolsista. 🙂

Comecei a trabalhar na CGU e gostei muito. O ambiente era ótimo e o salário
também. Só que eu trabalhava 35 horas por semana no MPU e senti a diferença
que é trabalhar 40 horas. 5 horas a mais na semana faz bastante falta. E
mais do que isso, trabalhar 1 turno em vez de dois faz mais diferença ainda.
Por esse motivo, eu mudei da estratégia do “Que mal faz se paga mais?” pro
“Que mal faz se paga a mesma coisa e trabalha menos?” e fiz o concurso do
TCU em 2009 (não perca as contas, 16o concurso). Adotei a mesma estratégia
do concurso da CGU e estudei um pouco mais de 2 semanas pro concurso do TCU.
Veio a prova de conhecimentos básicos e eu tirei uma das melhores notas. Só
que dessa vez aconteceu o contrário do que normalmente acontecia no passado:
foi a prova de conhecimentos específicos que me tirou do páreo. Aliás, eu e
quase todo o resto dos candidatos, pois sobraram vagas pra TI nesse ano.

Já em 2010 eu fiz o concurso do BACEN (17o concurso), também por causa da
carga horária menor, pois meu salário iria inclusive diminuir se eu
passasse. Só que dessa vez eu não estudei nada. Fiquei muito bem
classificado na prova objetiva, só que dessa vez a sorte me deu um pé na
bunda. Caiu uma questão na sobre gerenciamento de projetos na prova
discursiva que eu não sabia nem enrolar. Deixei a questão em branco e, por
isso, caí umas 100 posições e fiquei de fora.

Veio então o dito cujo, TCU 2010 (18o e último). Eu já tinha perdido as
esperanças em um concurso de perito da PF e estava convencido de me
aposentar dessa vida de concurseiro. Então eu pensei: “Se não tem PF, vai o
TCU mesmo!” E ia ter que ser o TCU mesmo, pois era meu último concurso. Ou
eu virava AUDITOR, ou me aposentava na CGU, o que também estava de muito bom
tamanho. Além disso, me convenci de que, se estudando só duas semanas pro
concurso de 2009 eu quase passei, se estudasse de verdade tinha grandes
chances.

Eu e mais alguns companheiros de CGU montamos uma força tarefa denominada
“Projeto 7 Horas”. Quando surgiu o primeiro boato do concurso comecei a
estudar entre duas e três horas por dia. Quando saiu o edital montei um
planejamento de estudos e continuei estudando entre três e quatro horas até
a última semana antes do concurso. Na última semana tirei férias e estudei
entre 8 e dez horas por dia. E resolvia questões de concursos anteriores
todos os dias na hora do almoço no “Projeto 7 Horas”. Além do mais, eu nunca
tinha conseguido sequer ser classificado em uma prova do CESPE e era questão
de honra pelo menos não ser eliminado. Pela segunda vez na vida (só
relembrando, a primeira foi no vestibular da UnB) eu estudei “di cum força”.
E comigo não tem esse negócio de relaxar antes da prova não. Se a prova é
amanhã às oito, eu estudo até às duas da manhã. E ainda levo material pra
revisar antes de entrar na sala de prova! (Me rendeu mais de 4 questões no
TCU) 🙂

A prova veio bem direcionada para a área de desenvolvimento de software,
sendo que e o meu perfil é de infraestrutura, mais especificamente redes e
segurança. Era o TCU e o CESPE jogando duro! E jogaram duro mesmo, pois a
questão mais importante da prova discursiva era sobre SOA. Porém, como eu
consegui cobrir todo o conteúdo do edital, alguns conteúdos com bastante
profundidade, e como tinha uma ótima base dos tempos de faculdade, consegui
passar em 15o e aqui estou escrevendo esse relato.

No final foi que nem filme de Hollywood: me aposentei da vida de concurseiro
com chave de outro, resolvi minhas desavenças com o CESPE e tornei o
“Projeto 7 Horas” uma realidade.

E foi assim que minha vida de concurseiro terminou: mais um pobre imigrante
que veio do Ceará e prosperou nessa Brasília. 🙂

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Algumas lições que aprendi e pontos que considero relevantes:

1. Não depende só de você, também depende da sorte
2. Não depende só da sorte, também depende de você
3. Quanto mais você faz sua parte, menos você depende da sorte
4. Uma graduação bem feita vale muito mais do que muitas horas de estudo
direcionado
5. Que mal faz se paga mais?
6. Que mal faz se paga a mesma coisa e trabalha menos?
7. Em uns você passa, em outros você não passa. Faça como o Johnnie Walker:
“Keep Walking.”


“Computer Science is no more about computers than astronomy is about
telescopes.”
Edsger W. Dijkstra

Nota: Matheus foi meu colega de CGU, se tornou amigo, e hoje é Professor de Segurança da  Informação do GranTI. 🙂 (Walter Cunha)

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1 Resultado

  1. Walter Cunha disse:

    Parabéns, Matheus! Você é um guerreiro! – WC

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